[PT] A história do estranho surto de papeira que colocou a NHL em alvoroço

Ryan Suter, dos Minnesota Wild, foi um dos craques afectados (Brace Hemmelgarn, USA TODAY Sports)

Não existe fenómeno mais singular que o aparecimento da palavra “mumps” entre o léxico gramatical da NHL nesta temporada. Em 2013, foram relatados nos Estados Unidos, um universo de mais de 300 milhões de pessoas, 483 casos de papeira. Na NHL, onde menos de 750 atletas têm presença regular, já foram identificados 15 casos positivos entre os jogadores (mais dois entre o grupo de árbitros) desde Outubro, e a epidemia parece estar longe de chegar ao fim, tendo já corrido de uma costa à outra.

Como explicar tal fenómeno? Quais os sintomas desta doença, quais os efeitos e como se propaga? Quais as razões que facilitam o aparecimento e disseminar de um surto deste tipo dentro de uma liga profissional? Onde surgiram os primeiros casos da doença? Vamos procurar responder a esta e outras perguntas neste artigo.

Muitos dos nossos leitores devem lembrar-se da papeira como uma doença normalmente associada ao período da infância. Usualmente ligada a outras infecções extremamente contagiosas, como o sarampo e a rubéola, é a manifestação de um vírus que durante muito tempo atacava a maioria das crianças, estimando-se que cerca de 90% a contraiam até aos 14 anos, mas que, com o aparecimento da vacina, viu a sua incidência reduzir-se significativamente, tornando-se uma maleita rara. Contudo, nos últimos anos, tem renascido com uma incidência estranha em adolescentes e adultos, o que tem intrigado os especialistas, já que o acesso à vacinação é, hoje em dia, relativamente universal a nível mundial. Mas antes de nos focarmos na vacinação, falemos da doença em si.

A papeira (ou mumps, em inglês) é uma infecção viral que afecta as glândulas parótidas, um dos três tipos de glândulas produtoras de saliva (salivárias) situadas por baixo e à frente das orelhas, provocando a chamada parotidite. Entre os sintomas observados nos doentes, registam-se, para lá de pronunciados inchaços e dores nas glândulas em um ou ambos os lados da face, febre, dores de cabeça, fraqueza e fadiga, dores corporais, perda de apetite e dificuldades para mastigar e engolir. Bastante desagradável, portanto.

Contudo, os maiores problemas são os efeitos colaterais que podem surgir em adultos. Entre os homens, cerca de 20 a 30% dos doentes sofrem de inflamação e inchaço dos testículos, a chamada orquite, que no limite pode causar esterilidade, enquanto entre os membros do sexo feminino é especialmente perigoso para as mulheres grávidas, podendo dar origem a abortos espontâneos. Além disto, adultos com papeira podem também desenvolver encefalite e, em cerca de 15% dos casos, meningite, que é potencialmente mortal e pode resultar em perda de audição, por exemplo.

Tanner Glass (esquerda), um dos mais prolíficos lutadores da NHL, foi o primeiro caso confirmado na Costa Este (Bruce Bennett/Getty Images North America)

O vírus da papeira é espalhado essencialmente por saliva, no contacto próximo de pessoa para pessoa, e por respiração de gotículas de saliva ou muco do nariz, garganta e boca provenientes de uma pessoa infectada que espirra, tosse ou fala. Além disso, é possível apanhar a doença em resultado da partilha de utensílios alimentares, latas ou copos que tenham sido utilizados por um portador da doença. O contacto com uma superfície que foi tocada por um doente que não tenha as mãos lavadas e um esfregar posterior do nariz ou da boca podem também transferir o vírus.

A vacina da papeira foi descoberta em 1967, com o número de casos a reduzir-se significativamente (estimativas apontam para 99%) depois da mesma passar a ser utilizada. Os recém-nascidos são normalmente imunizados contra a papeira durante o primeiro ano de vida e recebem uma segunda dose da vacina (que protege também contra o sarampo e rubéola) aos 5 anos, antes de entrarem para a escola. É importante referir ainda que nem todas as pessoas ficam protegidas, já que se estima que cerca de 10% das pessoas que são vacinadas não sejam capazes de produzir os anticorpos necessários para combater o vírus, e que o aparecimento de um caso totalmente desenvolvido de papeira conduz à imunidade da pessoa que o sofre para o resto da vida.

Contudo, relativamente aos restantes, existem também dúvidas sobre o seu nível de exposição após vacinação. Estudos apontam para o facto de a efectividade da vacina diminuir com o tempo, sendo considerada muito menos eficaz que outras ao proteger cerca de 88% dos casos. Foram registados vários exemplos onde o vírus se superioriza em indivíduos que receberam as duas doses de vacinação na idade infantil, sendo por isso aconselhada uma dose de reforço na idade adulta. Isto acontece porque os especialistas não conseguiram ainda determinar a altura em que o efeito da vacina se esvai, com o corpo a reagir bem à imunização inicialmente apenas para mais tarde a deixar de produzir os anticorpos necessários para a sua protecção. Por outro lado, também não se sabe a que nível de anticorpos no sangue se está seguro ou imune à doença.

Os surtos de papeira ocasionalmente detectados situam-se em zonas de alta densidade populacional e onde as pessoas vivem dentro das mesmas instalações, como dormitórios e colégios internos, que devido às características próprias da doença aumentam a exposição e facilitam a transmissão da mesma.

Se atentarmos ao dia-a-dia de uma equipa da NHL, vemos que não é propriamente surpreendente que tenha surgido um surto destes na liga. De facto, os jogadores chocam uns contra os outros, lutam, batalham, suam e cospem durante as partidas, deixando amostras de saliva um pouco por todo o lado, mas mesmo assim é difícil ter a certeza que a transmissão pode ser feita entre adversários no meio da acção, uma vez que os contactos próximos não duram assim tanto tempo. Fora do gelo, companheiros partilham garrafas de água, passam muito tempo em quartos próximos e interagem frequentemente com amigos e antigos companheiros antes e depois dos jogos. Não deixa por isso de ficar claro que o balneário de uma equipa da NHL é um local onde a protecção contra este tipo de doenças contagiosas é um processo complexo e onde é necessária vigilância redobrada.

A dificultar as coisas está o facto de os sintomas da doença poderem ficar latentes durante um largo período de tempo, que pode ir dos 12 aos 25 dias, estando os atletas em estado de contágio mesmo sem manifestarem os sintomas. É assim complicado identificar atempadamente os casos e isolar os jogadores, que mesmo sentindo-se bem estão a espalhar o vírus. A papeira demora normalmente cerca de uma semana a passar, não existindo tratamento específico para a doença, que normalmente é combatida por ingestão de fluidos e recurso a antibióticos que permitem incrementar a produção de anticorpos.

François Beauchemin e Corey Perry, dos Anaheim Ducks, dois dos primeiros jogadores infectados

Na NHL o primeiro caso noticiado e oficialmente diagnosticado com a doença remonta a 5 de Novembro, quando o avançado Corey Perry, dos Anaheim Ducks, foi afastado da equipa com sintomas de gripe e viu a confirmação de papeira chegar apenas uma semana depois. Já o seu companheiro François Beauchemin notou um inchaço na cara depois de um jogo com os Arizona Coyotes, a 7 de Novembro, e queixou-se após chegar a casa exausto. Quatro dias depois tinha já perdido imenso peso devido à falta de apetite, tendo acabado por ser hospitalizado e falhado cinco jogos, referindo após voltar que o desconforto tinha sido maior que qualquer outro que tinha sentido anteriormente. Apesar de em Setembro ter sido lançado um alerta de papeira em Anaheim, a epidemia da NHL não terá começado necessariamente no balneário dos Ducks.

Vários jogadores dos St. Louis Blues adoeceram durante o mês de Outubro, mesmo que até hoje a equipa não tenha confirmado que qualquer deles tenha sido infectado pelo vírus da papeira. O certo é que o finlandês Jori Lehtera estava doente antes de defrontar os Ducks a 19 de Outubro, com sintomas parecidos com os da papeira, e vários outros companheiros de equipa sentiram efeitos semelhantes. Também Keith Ballard, dos Minnesota Wild, ficou de fora entre 17 de Outubro e 8 de Novembro com uma doença que pode ter sido a papeira.

Além de Perry e Beauchemin, também Clayton Stoner e Emerson Etem foram diagnosticados com a doença na equipa dos Ducks, com Ryan Suter, Marco Scandella, Jonas Brodin e Christian Folin a juntarem-se a Ballard entre os casos positivos da formação do Minnesota, que viu assim serem afectados cinco dos seus defesas, curiosamente todos eles com cacifos adjacentes no balneário.

A 29 de Novembro o surto chegou à Costa Leste, com Tanner Glass, dos New York Rangers, a ser diagnosticado, tendo-se seguido Travis Zajac e Adam Larsson, dos New Jersey Devils, e mais três nomes nos últimos dias: Sidney Crosby e Beau Bennett, ambos dos Pittsburgh Penguins, e Derrick Brassard dos Rangers. Entre todos os nomes referidos, nota para grandes variações na incidência da doença, com os dois primeiros jogadores dos Ducks a terem de ser hospitalizados, Ballard a falhar oito jogos, Suter apenas dois, e Zajac a ser apenas diagnosticado quando já estava livre de sintomas.

Contudo, o caso mais mediático, e provavelmente mais bizarro, foi mesmo o de Sidney Crosby, por muitos considerado o melhor jogador do mundo.

(Continuar a ler em http://modalidades.com.pt/noticias/c92-nhl/a-historia-do-estranho-surto-de-papeira-que-colocou-a-nhl-em-alvoroco)

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